Benfiquistas falam de como é viver o seu clube no Porto

Adeptos do Benfica relatam ao Relvado as experiências do dia a dia na Invicta e há quem desabafe que
 
Adeptos do Benfica animados
Nuno Correia/Getty Images

"O inferno é ser adepto do Benfica no Porto!" É assim que o editor Miguel Gonçalves fala da sua experiência como "ferrenho adepto do Benfica" a viver na Invicta, numa referência ao chavão do "inferno da Luz". "É muito complicado", desabafa na conversa com o Relvado, concluindo que "um benfiquista no Porto sofre um bocadinho".

"Um inimigo na casa do Porto" - "Sou visto como um espião, um inimigo na casa do Porto", em que esta é "muitas vezes entendida como a casa do FC Porto", lamenta ainda este adepto encarnado, que vive na cidade desde 1996, quando tinha 18 anos. "Ainda por cima apanhei um FC Porto em crescendo, claramente dominador", repara, salientando que isso motiva a que os benfiquistas sejam uma espécie de "personagens humorísticas no meio da cidade do Porto". "Somos alvo de chacota, de ironia mais ou menos refinada", nota, considerando contudo que esse é afinal, "o sal, a pimenta, o açúcar do futebol".

Susana Silva, benfiquista "nascida em Paranhos, crescida em Ermesinde", portanto bem portuense, diz que "chega a ser desgastante viver constantemente numa minoria, rodeada de muito ódio". "Sinto-me tratada como uma inimiga em minha casa", desabafa a coordenadora-adjunta de um contact center, dando como exemplo a festa do título do FC Porto nesta temporada. "A esmagadora maioria dos portistas que conheço atacaram-me mais do que festejaram o seu próprio título", queixa-se.


"Já fui expulsa de um bar após um FC Porto-Benfica" - Considerando-se "massacrada em conversas e gozos", Susana Silva fala de uma "violência" que diz sentir desde que era pequena. "Eu nasci portista", atesta, contando que começou a sofrer os primeiros "insultos" quando se começou a interessar pelo Benfica. "Já fui expulsa de um bar na Ribeira após um FC Porto-Benfica que perdemos, por estarmos de camisolas, a fazer uma festa que incomodou os senhores de cachecóis do FC Porto que estavam ao balcão", relata, frisando que o empregado argumentou que estavam "a incomodar" e que era uma "provocação".

"Já estive dentro de camionetas apedrejadas, dentro de Casas do Benfica atacadas com balões azuis", conta ainda, confessando também a tristeza por não ter podido festejar o título alcançado no Bessa na Avenida dos Aliados. Miguel Gonçalves constata igualmente "a confusão, a violência" que geraram os festejos do Benfica na conhecida Avenida da Invicta, concluindo que é a "parte nada nobre que tem o futebol". Pessoalmente diz que só viveu situações de "violência no vocabulário" e de "pressão psicológica".

Quando a rivalidade resulta em violência... - O gestor de clientes Leonel Ruivo frisa também que nunca foi vítima de violência pelo seu clubismo porque não se põe "a jeito para isso", alega, admitindo contudo que a rivalidade "pode chegar aí, sem dúvida". A título de exemplo, conta a história de um vizinho que "ficou inválido", depois de uma briga entre membros de claques de Benfica e FC Porto num bar da Ribeira. "Agora é como uma criança, esteve um mês em coma, ficou sem dentes, depende da mulher para algumas tarefas", refere com tristeza, salientando que tem conhecimento de "outros casos de pancada".

"Mas isso são claques, nada de pessoas que fazem o seu dia normalmente", ressalva, frisando que como benfiquista no Porto não tem "medo de nada". "Celebro sem problemas nenhuns, mas quando ganho não me meto no carro a buzinar, nem ando sempre a picar os portistas", atesta. "E não vou para o Aleixo, Pasteleira ou Cerco ver o futebol", diz ainda, referindo-se a alguns dos bairros mais problemáticos da Invicta.

Também o porteiro Joaquim Ramalhão sustenta que nunca teve problemas. "Não sou de me meter nessas situações", afiança, lamentando contudo que é usual "lançarem pedras à Casa do Benfica" perto da sua residência, sempre que o clube da Luz ganha. O que há é "muitas bocas", diz, considerando que "entre amigos, há aquele gozo saudável". "Quando o Benfica perde somos gozados, mas até é normal, quando ganha é melhor mantermo-nos calados porque a coisa pode ficar feia", acrescenta Leonel Ruivo.


Portista vs tripeiro - O que mais chateia Miguel Gonçalves é "a questão do ser mouro". O editor considera que se cai sempre no erro de "tomar um portista por um tripeiro", fazendo-se "a colagem de um clube a uma cidade". "Lisboa não é só Benfica ou Sporting, tal como o FC Porto é um clube de uma cidade, o Porto, que vale muito mais do que qualquer clube de futebol", repara. E Susana Silva prossegue, lamentando que o FC Porto ainda é muito conotado com o Porto e confessando que lhe "dói" ouvir os benfiquistas referirem-se aos portistas como "tripeiros". "Tripeira sou eu também e com muito orgulho", reforça.

Pelo meio ficam as críticas a Pinto da Costa, que "misturou guerras norte-sul com desporto", refere Susana Silva, que considera que sem esse tipo de discurso a rivalidade seria "menos violenta". Já Miguel Gonçalves diz que esse tom "regionalista" está gasto. "Custa-me um bocado perceber, até do ponto de vista de estratégia comercial, como se insiste neste discurso", frisa.

E se Joaquim Ramalhão nem quer ouvir falar de Pinto da Costa, confessando que só citar o nome já o deixa "doente", Leonel Ruivo assume alguma concordância com o "combate" do dirigente contra o sul. "Apesar de não gostar dele, em certas coisa tenho de lhe dar razão, querem centralizar tudo na capital e não pode ser", repara.


"Ir ao Dragão nem de graça!" - Quanto a ir ao Estádio do Dragão ver jogos do Benfica... "nem pensar, nem de graça", assegura Joaquim Ramalhão. "Não me sinto bem no meio deles", confessa em tom de brincadeira, para a seguir salientar que não lhe agrada "as pessoas não se poderem manifestar para apoiarem a equipa". "É preciso ficar calado que nem um mocho", atesta.

Susana Silva confessa que foi "às Antas uma vez e ao Dragão duas, mas não repito". "Há dois sítios onde fui obrigada a esconder o meu cachecol: Dragão e Guimarães", conta. "Basta imaginar uma benfiquista a descer a Alameda do Dragão antes do jogo", prossegue, sublinhando que uma amiga que ia a passar perto do estádio, em dia de desafio, "a puxar pelo seu Benfica, levou pontapés no carro e ficou com o vidro partido".

"Muitos benfiquistas no Porto escondidos..." - Apesar de tudo, esta sócia do Benfica desde 2002 diz que há "muitos benfiquistas no Porto". "Mais do que os que os portistas gostariam que houvesse", constata, relevando que alguns andam "escondidos" para não serem "chateados ou provocados". Já Leonel Ruivo nota que "a percentagem de portistas tem aumentado e muito nos últimos anos".

O que é certo é que os benfiquistas no Porto são "claramente" mais incomodados do que os sportinguistas, considera Miguel Gonçalves. "Isso é o que faz as equipas grandes", realça, notando o facto de o Sporting andar arredado da luta pelo título nos últimos anos.

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Rio Ave 0 - 0 Belenenses
Primeira Liga
22/12/2014 - 21:00
Nacional 0 - 1 Sporting
Primeira Liga
21/12/2014 - 19:15
Benfica 1 - 0 Gil Vicente
Primeira Liga
21/12/2014 - 17:00
Moreirense 1 - 0 Boavista
Primeira Liga
21/12/2014 - 16:00
Arouca 1 - 0 Marítimo
Primeira Liga
21/12/2014 - 16:00